segunda-feira, 13 de abril de 2015

2.

Quinta-feira, 4 de Dezembro
05:00hrs. 
- E aí ferinha!
Onde estou? Sinto minha mente em paz, estou correndo em um campo verde, com um sol tão forte que corro de sombra em sombra brincando de esconde-esconde, estou vestido todo de branco, meu sorriso vai de orelha a orelha e me sinto tão feliz que posso chamar aqui de paraíso. Mas de repente, o céu começa a escurecer, ouço uma voz distante, procuro ao meu redor de onde vem, mas nada. E o céu já está praticamente negro, quando as arvores e o campo morre aos poucos, tudo à minha volta vira escuridão, acho que estou caindo...
- Vish, esse aí tá dopadinho.
Não, não estou caindo, estou sendo acordado. Estou sendo trazido de volta a realidade.
Meus olhos abrem lentamente por causa da claridade, e aos poucos vai se acostumando. Já consigo ver melhor, já sinto quase sinto totalmente meu corpo e estou conseguindo pensar mais claramente.

1.

Quarta-feira,  03 de Dezembro

15:00hrs. 
Droga, me tirem daqui!
Estou gritando? Não, minha boca está totalmente fechada, e quando tento abri-lá, algo me impede. 
Eu quero sair daqui! 
Ainda não consigo falar, minha cabeça está girando e meus olhos estão quase fechados, mas sei que ainda estou em pé, apoiado à uma parede toda com azuleijo branco, sinto um cheiro estranho, não consigo identificá-lo. Consigo abrir os olhos totalmente quando uma luz branca chega junto à mim. Não, não é uma luz, é uma mulher vestida de branco.
- Seu nome é Fernando? 
Olho para ela, pisco várias vezes lutanto para meus olhos continuarem abertos antes de acenar com a cabeça que sim.
- Ok. Me acompanhe.
Quem é você? Porque te acompanharia? Você vai me tirar daqui?
Tudo aqui é estranho, mas ainda não consigo reparar em todos os detalhes, só consigo ver que estou andando apoiado à um corrimão, em um corredor imenso que parece nunca ter fim, todo branco ainda com um cheiro estranho. Espera, eu conheço esse cheiro. Estou em um hospital?
A mulher finalmente para de andar a consigo ver pegando algo em seu bolso, e abrindo uma porta. 
O que você vai fazer? 
Droga! Porque eu não consigo falar? Porque aqui dentro da minha cabeça eu grito altamente mas sequer estou abrindo a boca? Porque eu estou lento?
- Entre aí Fernando, veja uma roupa que te serve e à vista. Estou aqui na porta te esperando.
Eu já estou vestido! Não está vendo?
Meu corpo contraria a minha mente, e entra naquela salinha com várias prateleiras com muitas roupas amassadas e algumas rasgadas... Coloco a mão e pego um short qualquer e uma blusa. Olho para os lados e há uma prateleira somente com cuecas, pego uma e sigo as ordens de uma estranha.
Quando saio, percebo que não estou lento, meu corpo não está lento, consigo andar perfeitamente sem nenhuma ajuda, mas o que me impede é a minha cabeça, ouço zumbidos, barulho, sinto uma pequena tontura.
ME TIREM DAQUI!
A mulher de branco está na porta à minha espera, caminho rumo a ela.
- Bom Fernando. Meu nome é Janice, eu sou uma das infermeiras daqui do hospital. No começo, você ai estranhar tudo, mas depois vai até se acostumar. 
Como assim? No começo? Começo do que? Me acostumar com o quê?
- Agora todo o pessoal está na T.O. então vou deixar você aqui no corredor, e depois arrumaremos um quarto para você, tudo bem?
NÃO! Não está tudo bem, eu não me lembro dos meus dois últimos dias, só quero ir embora daqui, quero ir embora de tudo!
Depois de muito tentar, finalmente sinto a minha língua. É agora. Estou sentindo meus lábios, eles estão se abrindo, pronto, agora consigo falar.
- Tá.
"Tá?" 
Como assim, "tá?"? Eu estou mentalmente confuso, apenas quero a minha cama, ela acaba de me dizer que vou ter que me acostumar com aqui, e quando consigo finalmente falar, tudo o que saí é "tá?"
DROGA!
E a mulher de branco vai embora. Qual o seu nome mesmo? Não me lembro. Estou tão cansado que encosto na parede e deixo o meu corpo escorregar lentamente até chegar ao chão. Meus olhos começam a fechar de novo, mas dessa vez não vou resistir...

Prólogo

Nunca pensei em como iria morrer, mas hoje ter uma morta rápida me parece uma boa maneira de partir. Não que eu ligue em sentir dor, porque de cinco anos para cá, tudo o que eu faço com o meu corpo e com a minha mente é fazê-los sentir dor, e a cada momento que se passa, ela só aumenta. 
Então eu não me importaria em partir agora, independente do modo de partir. Mas há algumas escolhas em que eu poderia fazer, e eu já decidi a minha.
Hoje, no pontilhão. Às dez horas da manhã.
Eu conseguirei o que quero, eu não vou mais sentir dor.